Segundo a psicóloga Kívia Carvalho, os transexuais são erroneamente classificados como homossexuais.
"Os corpos dos transexuais não condizem com sua condição psicológica. Geralmente operados, eles têm cabeça de mulher, se sentem mulheres e, por isso, ao gostar de homens, se consideram heterossexuais. Diferentes dos homossexuais, que são homens, que se aceitam como homens e sentem atração pelo mesmo sexo", esclarece.
Na desenfreada corrida para alterar o arquétipo, diversos transexuais se tornaram vítima de erros médicos, já que realizavam cirurgias de reconstrução de sexo em clínicas clandestinas. Desde 2002, o Conselho Federal de Medicina autorizou a realização do procedimento cirúrgico para a "transgenitalização" – procedimento onde o órgão sexual masculino é modificado, ganhando formato de genitália feminina – em todo o território brasileiro.
Até então, esta prática era considerada criminosa e classificada como automutilação. O texto da resolução considera a intervenção como tratamento para os transtornos psicológicos sofridos pelos transexuais, em virtude da possível rejeição ao genital.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 250 cirurgias desse tipo foram realizadas no Brasil nos últimos cinco anos. Porém, havia ainda mais uma barreira a transpassar: o preço. Não coberta pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a "transgenitalização" custa de R$ 20mil a R$ 30 mil. Mais difundida no exterior, transexuais vêem em países como a Tailândia destinos certos para realizar esse "sonho", o que pode dobrar os custos.
Há uma semana, o Tribunal Regional Federal, da Região Sul, determinou que o procedimento cirúrgico passasse a ser realizado nacionalmente pelo sistema público de Saúde.
O ministro da pasta, José Gomes Temporão, afirmou que não irá recorrer da decisão e que não há mais empecilhos quanto à inclusão do procedimento.
"A cirurgia não é mais considerada experimental e tem o reconhecimento do Conselho Federal de Medicina", explica Temporão.
Para o presidente do Grupo Diversidade de Niterói (GDN), Renato Marques, a decisão judicial é mais um grande passo na luta contra a homofobia.
"A decisão vai possibilitar a democratização do procedimento cirúrgico. Não fazer a cirurgia pode causar transtornos muito maiores", adianta.
Processo cirúrgico dentro de um mês
A recomendação pela inclusão do procedimento de mudança de sexo é resultado de um processo de discussão empreendido em fevereiro de 2006, por iniciativa do Comitê Técnico Saúde da População GLTB (Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais). O grupo foi instituído em 2004, como efeito da proposição do Governo Federal do Brasil sem Homofobia - Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual.
A realização de procedimentos de "transgenitalização" e outras intervenções foram condicionadas à resolução do Conselho Federal de Medicina, que define critérios para sua viabilização, como: ter mais de 21 anos; ter diagnóstico de transexualismo com exclusão de outros transtornos de personalidade; e passar por acompanhamento psicológico ou psiquiátrico de pelo menos dois anos de duração. A análise clínica ficará a cargo dos órgãos estaduais e municipais de saúde.
Em um mês, as unidades públicas de saúde começarão a realizar os procedimentos cirúrgicos. A assessoria do Ministério da Saúde ainda estuda os possíveis valores que serão atribuídos à cirurgia na tabela. Cogita-se que seja orçada por volta de R$ 2 mil.
Experiência – A comerciante Graziella, de 32 anos, há cinco meses resolveu encarar a cirurgia. Para isso, fez as malas e embarcou para a Tailândia, no sudeste asiático. Depois de oito anos colhendo depoimentos de outros transexuais e buscando referências médicas, ela conta que se sente completa.
"Essa não é a fórmula mágica da felicidade, mas me sinto muito mais segura e sei que haverá menos preconceito a partir de agora", conta.
Determinação – Aos 17 anos, Graziella começou um tratamento hormonal, que modificou seu corpo, dando-lhe formas femininas. Anos mais tarde colocou próteses de silicone no seio.
"Tudo faz parte de uma grande realização. O que eu fiz foi por mim, para me sentir mais bonita", ressalta.
Satisfeita com a decisão, ela garante não se arrepender de ter passado pelo procedimento cirúrgico e muito menos pelo pós-operatório. Graziella conta que foi obrigada a ficar seis dias em repouso e mais dois meses sem relações sexuais. Além disso, é preciso fazer exercícios constantes para alargamento da cavidade vaginal. Mas valeu a pena. Depois de tanto sacrifício, para seu desejo se tornar completo, falta apenas ver seu nome estampado na identidade.
"Já entrei com um processo há dois meses e estou aguardando. Sou a Graziella e ponto", destacou, acreditando no futuro.
Fabianna é contra
A atriz, dançarina e representante da comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) de Niterói, Fabianna Brazil, conta que a realização da cirurgia nunca fez parte dos seus planos.
Ela garante não ter problemas com seu órgão sexual.
"Muito pelo contrário. É no meu pênis que concentro o meu prazer", afirma.
Para ela, o procedimento cirúrgico, que extirpa os testículos, retiraria o prazer. Fabianna não acredita em orgasmo psicológico.
"Não saberia viver assim. Muitas meninas dizem que o orgasmo é psicológico. Para mim é impossível ter prazer sem o pênis. O orgasmo tem que ser ‘psicotocológico’", brinca ela.
Ela está na dúvida
A atriz, bailarina e Rainha da 3ª edição da Parada GLBT de Niterói, que acontece neste domingo, Rafaëlle La Reine, vem amadurecendo a possibilidade de realizar a cirurgia de transgenitalização.
Os efeitos do pós-operatório e distúrbios psicológicos sofridos por amigas são os principais motivos que ainda a afastam do desejo de se sentir "completa".
"Conheço várias meninas que ficaram loucas depois que fizeram a cirurgia e não tiveram acompanhamento psicológico. A maioria também faz para agradar o namorado que, na primeira briga, duvida da sua feminilidade. Isso sem contar a dor e os desconfortos causados pela cirurgia", explica.
Segundo Raphaëlle, seu corpo e sua alma traduzem a essência feminina. Mas a cirurgia tem que ser uma decisão individual, por se tratar de ato irreversível. Ainda assim, a "transgenitalização" não seria suficiente para que ela se tornasse uma mulher autêntica.
"Vai ser sempre uma eterna busca. Vai sempre faltar alguma coisa. Depois da cirurgia, não teremos ainda o útero e os ovários. Gostaria que houvesse uma cirurgia completa. Ser mulher é muito mais do uma operação. A feminilidade está na alma", afirma Raphaëlle.
Cirurgia – A primeira cirurgia foi realizada na Dinamarca, há mais de 50 anos. Em 1952, a francesa Christine Jorgensen escandalizou o mundo ao noticiar ser o primeiro transexual operado no mundo.
De lá para cá, diversas técnicas surgiram e outras se desenvolveram. Atualmente, existem duas largamente difundidas. No Brasil, a maioria dos especialistas realiza procedimento que consiste na dissecação dos testículos e de parte do tecido que preenche o pênis. A pele da genitália é preservada e utilizada na criação do futuro canal vaginal.
Um dos pontos negativos dessa técnica é a perda da sensibilidade local, em virtude da remoção de nervos e vasos sangüíneos.
A segunda prática consiste na inversão material do genital, o que mantém os sistemas sangüíneo e nervoso. O nervo central é mantido e transformado em uma estrutura parecida com o clitóris feminino. Esta técnica tem sido mais utilizada na Tailândia, em países asiáticos e europeus.